quarta-feira, 16 de novembro de 2016

“Eu falhei em comer, falhei em beber, falhei em não me cortar em pedaços. Falhei na amizade. Falhei na irmandade e na filhandade. Falhei em espelhos e em balanças e em telefonemas. Ainda bem que eu estou estável.” Winter Girls

Engolir.

:: Mastigar/engolir/mastigar/engolir/mastigar/engolir/mastigar/engolir/mastigar/engolir/mastigar/engolir/mastigar/engolir/mastigar::

Foi o que fiz estritamente por algum tempo sem pensar.

Sem respirar.
Sem sentir.
Sem querer.

Eu a vi.

Loura     ...      Magra     ...     Sinistra    ...     

Ela cheira a água do mar.

Não consigo mover-me.

Me pego ajoelha em frente ao poço de sujeira.

Minha alma quer sair.

Eu a provoco.

Despejo toda aquela sujeira. Era veneno pão com manteiga e queijo, era veneno macarrão com linguiça, era veneno achocolatado. Vomito até sentir o gosto ácido de Eu.

Mia me dá os parabéns. Sente-se satisfeita por estar mais presente em minha vida neste dia.

Eu nem acredito ter sido tão fácil, depois de um ano, é como se eu nunca tivesse parado. Foi prazeroso. Sinto-me revigorada. Pus todo o lixo para fora.

::Limpa/limpa/vazia/pura::

Eu precisava purificar-me.

Senti a água escaldante queimar minha pele pálida. A gordura poderia derreter e descer pelo ralo. Lavei o cabelo. Uma, duas, três vezes. Não importa. Tirei todos os pelos sujos. Fiquei lisa, macia, como uma flor recém desabrochada. Esfoliei a pele do rosto, eu poderia arracá-la desde que toda gordura se fosse de mim. Limpei as unhas, escovei os cabelos. A boca estava seca; dei-lhe água. A minha pele recém queimada ofereci creme hidratante, e disse a ela que aproveitasse aqueles nutrientes, porque ela os veria apenas vindo de fora por um bom tempo. Eu queria muito escovar os dentes, mas sabia que não podia, já estavam sensíveis demais.

Na cozinha novamente, porém vestida de outra pessoa. Água ferve. Cheira o chá. Verde. O sabor é horrível. Perfeito para mim. Ana chegou. O cheiro de gengibre e céu estrelado é inconfundível.

Por que me deixou chegar a isso? Precisei tanto de ti. Não me abandone, não mais, por favor!

Meu cérebro insiste em me fazer achar que ela realmente está aqui. Ouço vozes, sussurros... Vejo sombras sinistras. Tenho a impressão de estar sendo observada.

Questiono-me se realmente estou louca. Afinal, isso não é atitude de um ser humano normal.

Mas eu não sou normal. Nem especial.

Eu sou a sujeira que fica estagnada nos cantos da sala. Sou um uma pedra em meio aos grãos de areia, grande e pesada demais.

Eu não deveria estar lá.
Não deveria estar aqui.

Suspiros, me resumo a suspiros...
A lamentos de uma alma hostilizada por si própria.
A desejos nunca realizados. A frustrações e decepções.

Ontem a balança me acusou, disse que eu estava louca. Me perguntou por onde andou minha cabeça. Me fez pensar como pude chegar a isso.

Estou na zona de perigo. Em alerta. A beira do precipício. Se eu passar daqui, a queda é certa. Se eu chegar ao fundo do poço novamente, não sei se terei forças para levantar e escalar toda extensão da minha decadência.

Eu sinto tanta falta...

Meus ossos de porcelana brilhavam. Eu sentia tanta dor por qualquer pancada. Eu os tocava com orgulho. Tudo era frio. Não havia suor, sujeira, rejeição.
As pessoas gostavam de mim, me queriam por perto. Ou seria eu me amando?
As roupas caiam. Tudo era confortável. Eu levantava os braços livremente. Observava feliz minhas pernas enquanto caminhava, não eram realmente finas, mas não se tocavam. Meu pulso, eu sentia que poderia quebrá-lo a qualquer movimento mais brusco. Meus pés ficaram feios, ossudos, as veias saltadas. E o que dizer das minhas mãos? Pareciam ser de uma criança desnutrida. Eu estava tão linda. Notavam minha cintura, ela estava lá existindo. Eu era uma caveira mexicana. Maçãs saltadas, olheiras profundas. Meus fartos lábios destacados, implorando que alguém os notasse. Minha barriga se comportava, os ossos de meu quadril era uma deliciosa canção da vitória. Nua, em frente ao espelho me via tão longe da perfeição. Mas ali, a baixo da clavícula estava a gaiola de ossos saltando em meu colo, veias azul faziam contrate ao branco-gelo de minha pele.

Agora eu sou amarelo-banha. O rosto é como uma bolacha. Minhas mãos parecem estar envoltas de uma espessa luva de frio, as pernas se arranham brigando entre si. Os ossos do quadril, colo e costelas sumiram. Se foram de mim. Meus braços forneceriam banha para um Mec Donald's inteiro. Minha barriga chama tanta a atenção que já não me notam. 

Dói não ter algo, mas tê-lo e perdê-lo para sua fraqueza é humilhante.

Esta é minha realidade.
Me comprometo a mudá-la.

Custe o que custar.

No último gole de chá sinto o amargo de minha existência.


O fato descrito ocorreu ontem. Escrevi espontaneamente após miar, enquanto tomava chá. Chá este que era horrível para mim até este dia. Hoje, consumi um litro do mesmo - sendo 600ml de chá verde e 400ml de chá de hibisco+canela+gengibre. O dia foi de jejum não planejado, eu simplesmente não senti necessidade de comer então não o fiz. A balança me mostrou com deleite 1kg a menos do que tinha dois dias atrás. Tudo bem, pode ser apenas água, mas do que importa? Eu estou um quilo mais leve, um quilo mais perto da minha meta.
Não há mas nada o que falar. Eu ansiava por isso. A fome conforta, vocês podem me entender? Ela acalenta meu espírito torturado. É apenas desta maneira que encontro um pouco de paz.
As meninas que me apoiaram quando decidi parar de vomitar, perdoem-me, eu não pude controlar. Para mim, “miar” vai muito além do que apenas pôr comida para fora. Junto com a nojeira desce toda minha frustração, minhas dores. Todo o processo me machuca por dentro, me destabiliza. Entretanto se consigo privar-me de comida no pós vomito é como sentir meu corpo tomado por uma solução mágica de cura. Sinto casa célula se regenerar e crescer mais forte.

A sensação de vazio é complexamente interessante. É como ativar a função “máximo” dos seus nervos. Tudo é mais intenso.

Seus pensamentos se tornaram claros...
Você sente se vai vir chuva...
Qualquer dor se intensifica...
Qualquer desacordo é um bom motivo para brigar...
Qualquer briga é o fim do mundo...
Qualquer som é alto demais...
O que não te interessa é irritante suficiente...
Você é irritante o suficiente...
Você percebe seu corpo mais claramente...
Conhece suas dimensões.
Sente o sangue quente latejar em suas veias...
Sente o estômago se contrair involuntariamente...
Ouve seu coração bater de um jeito menos metódico...
Isto porque você está instável.
Isto porque você está vivendo.

Finalmente viva!!!

Tudo o que eu gostaria era de viver cada momento...

Vocês entendem que não estou louca? Realmente entendem?
Não posso contar a mais ninguém!
Estou sozinha.

Eu preciso ser magra.


Vocês me compreendem?