quinta-feira, 30 de março de 2017

A vida é um desgaste da alma 🍃


Posso vê-la, como se estivesse acima de seu corpo. Ela tem longas unhas lilases grudadas aos dedos. Um sorriso morto na cara, um coração parado no peito. Com o indicador começa a incisão, da esquerda para direita, suave e doloroso - precisou afiar muito estas unhas para tal feito. Terminando o corte, é necessário retirar, extrair, jogar fora tudo o que a mantém cheia. Metros de intestino, fígado, pâncreas, rins, estômago! Ah estômago... Maldito estômago. Este, ela faz questão de estraçalhar com as​ próprias​ mãos. Retirados os excessos, é hora de limpar, purificar e isolar o local. Álcool e água fria. Agulha em uma mão, arames na outra. Costura, costura, costura. Não há mais volume. Ela abriria um sorriso de satisfação se pudesse. Mas a também boca foi isolada, anteriormente​ ao arrancar a lingua.
A carne dormente, já habituada a dor, lateja. Os famintos olhos - não mais de matéria - observam com cautela a crescente putrefação dos órgãos já não tão vitais assim.
Ela decidiu​ manter o coração no peito, e o cérebro raciocinando dentro do crânio. Pois o último sabe contar calorias e a faz enxergar suas dimensões, e o primeiro mantém a dor constante, e é isso que a fortalece.


Ela é acordada por uma​ vontade súbita de respirar, como se alguém estivesse segurando sua cabeça debaixo d'água. Lembra-se de relance da incômoda cena de automutilação frente ao espelho. Mas foi apenas um sonho. Olha no celular, quase 07:00 h da manhã. Levanta-se, asseia-se, veste-se. Mecânicamente como de costume. No trajeto até o trabalho ela imagina morrer de mil formas:

• O ônibus vai bater, capotar três vezes e quando parar ela terá uma barra de ferro atravessando suas costelas.
• Um assaltante lhe pedirá a bolsa, ela correrá e ele a alvejará com três tiros certeiros, dois nas costas e um na cabeça. O da cabeça foi de raspão. Ela morre com os pulmões perfurados,​ afogada em seu próprio sangue.

• Ela decide tomar chá no caminho ao trabalho. É uma nova erva, da qual não havia experimentado. Cinco minutos depois sua glote está fechada e já é impossível respirar. Uma​ infeliz e fatal alergia.

• Quando desce da condução uma moeda cai no chão e desestabiliza o equilíbrio terrestre. Então um buraco se abre diante dela e a engole para todo sempre.

• Chegando no trabalho, assim que põe a mão na porta de vidro, esta estoura devido a pressão de sua energia negativa e os estilhaços atingem, principalmente​, seu pescoço perfurando a jugular.


Mas quando ela volta a si, vê que o universo insiste em mantê-la viva. Quantas vezes se imaginou​ atirando-se contra um pesado parabrisas de caminhão? Ela anda pelas ruas enxergando possíveis lugares para a morte. A ponte da cidade é um perigoso e tentador convite. Por isso ela passa bem longe desta.


Todos os dias são assim. Ela se pega tramando em silêncio seu próprio fim. Vive de epifanias. Seus devaneios são tão intensos que ela chega a sentir o cheiro do sangue morno. Parece que é essa a regra.

Sangue, sempre​ há sangue.

Ela precisa descobrir o significado disso.


6 comentários:

  1. Oi Alissa, nossa que texto.
    Gostaria de saber como está seu processo de emagrecimento. Espero que tudo esteja correndo bem.
    Beijos da Lua minha flor.

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  2. Todas as vezes que me afasto da anorexia, me sinto extremamente deprimido, mas quando me aproximo, quando estou no controle, me sinto até outra pessoa, me sinto melhor, sinto como se estivesse vivendo. Também quero saber como estão indo aqueles seus planos que estipulou... Tenha um bom final de semana! 💋💋💋

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  3. Nossa, pior que é exatamente assim, como se viver fosse um suplício.
    Gostei muito do seu texto, eu também já imaginei coisas desse tipo acontecendo, especialmente a parte da ponte, nunca tive medo de altura, mas de uns tempos pra cá ando sentindo medo de chegar perto de janelas altas porque tenho a impressão de que em um ato de coragem posso tomar impulso e acabar fazendo.

    Suas palavras foram bem profundas, coisas que nem todo mundo tem coragem de escrever.

    Kisses

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  4. Eu também saio de casa e fico pensando em formas de morrer

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  5. Esses pensamentos nos perseguem diariamente....

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  6. Você é sempre tão intensa garota?

    Todos os teus textos me dão essa sensação de intensidade! Uma intensidade que amedronta muitas vezes e que tb é real para mim.
    Eu sempre imagino que ou morrer, na verdade por vezes, eu tenho certeza de que meu fim se dará devido a um suicídio. Afogada no meu próprio sangue.

    Como anda o seu processo de emagrecimento? E como você está no geral?

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