quinta-feira, 16 de março de 2017

“Mordi, mastiguei, engoli dia após dia, e menti, menti, menti (Quem quer se recuperar? Levei anos para chegar aquele peso. Eu não estava doente; eu estava forte)”


Eu só queria te lembrar daquela sensação de vazio, das borboletas no estômago.

Você já não dá a devida importância a si própria. Está saturada de fracassos e acha que já não tem mais forças para se desvencilhar disto aqui. Porém é ainda mais fraca quando se trata de livrar-se desta condição.

Para em frente ao espelho e sente um nó na garganta. Sabe o que isso significa? É ana te dando um murro de dentro para fora, tentando abrir teus olhos diante do fracasso iminente de ser gorda.

Não adianta! Você nunca vai se conformar.
Nunca.

Essa é sua condição, por algum motivo a ana e a mia te escolheram.

Algum trauma, alguma tendência suicida, alguma deficiência psicológica genética hereditária. Que seja!

Imagine um um bando de cervos em uma floresta. Um deles caiu e quebrou a pata, que dói muito e incomoda, já faz tempo. Todos se alimentam em uma bela clareira, e de repente um grande predador ataca o bando. Todos fogem, mas o animal está faminto e os persegue. Advinha quem a fera consegue alcançar? Sim, o cervo machucado. Este, por sua condição desvantajosa, é a presa mais fácil. E ainda que a dor de sua carne rasgando seja insuportável, o cervo agradece ao​ grande predador, por dar fim a aquele incomodo contínuo a que estivera submetido por tempos arrastados. Desde o início o cervo desejava ser apenas ossos.

Sim, você é o cervo, o predador é ana, e o ferimento é algo que, querendo ou não, te deixou vulnerável para estar na condição de presa.

Note que assim como o pequeno cervo você já quis fugir do feroz predador, negando seu transtorno, tentando ser saudável. Entretanto, este predador não desiste fácil, pois a cada tentativa frustrada de deixá-la você voltava para a Ana cada vez mais determinada. E apesar da dor e da culpa de estar se matando, você anseia por um fim. Por um basta. Assim como o pequeno cervo de nossa história você quer ser apenas ossos.

Observe, seu “ferimento” não é tão horrível aos olhos alheios, e ninguém nunca vai entender o por quê de você ter preferido o dramático fim jamais compreendido a ter pedido ajuda e tratado seu incomodo inicial.

Você preferiu se oferecer ao grande lobo mal e não gritar quando ele deu a primeira mordida.

Você preferiu acabar algo ruim com um mal devastador.

Você sente falta de sentir esperança, se pergunta por quê.

São tantos os “por quê's”

Por que tem que ser assim?
Por que comigo?
Por que eu não consigo?
Por que ninguém me ajuda?
Por que não acaba logo?

Eu não posso te ajudar, não posso sequer te dar um abraço...

Não chore menina, não tema a escuridão.

Não há nada no escuro que não exista no claro.

Respirar ficou difícil de uns tempos para cá. Quando as luzes estão apagadas​ tudo piora. É como se inúmeras mãos te puxassem em direção opostas, agarrando-se ao teu pescoço. A sufocando.

Ah Allissa minha cara... Não existe mais jeito para você. Mesmo indo bem na dieta não consegue sentir-se melhor. A vontade de deixar esta vida persiste, as vezes sem razão aparente. Você simplesmente não quer mais viver. Por qualquer motivo, por motivo algum.

Mas não se preocupe, apenas alimente seu pulmão com ar em quanto pode fazê-lo.

“Multipla falência dos órgãos”

É um bom título para seu último post, e será escrito em vermelho jambo, com o sangue congelado no seu cadavérico corpo cor branco-lilás.

Sorria pequena Allissa... apenas finja que está bem, é tudo que precisam pensar sobre você.



16 comentários:

  1. Nossa Allissa,

    Esse texto foi forte, descreveu muito bem o processo que nos torna o que somos.

    "e ninguém nunca vai entender o por quê de você ter preferido o dramático fim jamais compreendido a ter pedido ajuda e tratado seu incomodo inicial." as vezes nós tentamos, mas ninguém realmente parou para ouvir e realmente ajudar, se empenhar nisso.

    Você colocou em palavras algo que eu também sinto tão perfeitamente, fazendo essa analogia com o cervo e o predador.

    Ótimo texto, forte, pesado, mas eu gostei porque você soube explicar tudo em palavras.

    Kisses

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  2. "Sim, você é o cervo, o predador é ana, e o ferimento é algo que, querendo ou não, te deixou vulnerável para estar na condição de presa."

    A Ana é uma amiga que não pretendo abandonar.
    É com ela que converso quando sinto que ninguém se importa de verdade.

    Allissa, minha cara, sinto que você nunca vai mesmo acreditar em mim. Mas vou continuar dizendo que, você é muito especial!

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  3. Oi Alissa ♡
    Nossa, descreveu da maneira que me sinto atualmente. Me sinto esse cervo machucado, tanto por dentro quanto por fora. É inacreditavel quanto as palavras das pessoas tem peso dentro de nós.

    Um beijo querida ♡

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  4. Senti até um medinho enquanto lia, porém gostei, texto super vivo! Uma pergunta: Você escreveu esse texto enquanto estava sobre os efeitos do E.C.A.? Se sim, por mais que sejam efeitos chatos, te despertou o seu lado talentoso, o da escrita.

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  5. Oi,Alissa ♡ Tudo bem? Eu poderia dizer que fiquei em estado de choque ao ler seu querido texto. Eu consegui me ver no decorrer de cada parágrafo,me sinto ferido por dentro e por fora. Confesso que as pessoas me vê sorrindo mas por dentro só tem uma escuridão que não consegue cicatrizar e isso dói muito!

    Beijos ♡
    reckless

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  6. Alissa, querida, como você está?

    "Sim, você é o cervo, o predador é ana, e o ferimento é algo que, querendo ou não, te deixou vulnerável para estar na condição de presa." OLHA, QUE ANALOGIA! Seu texto ficou ótimo e soube expressar como é... como as coisas vão acontecendo.

    beijos!

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  7. Era tudo q eu precisava ler agora

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  8. Tenho acompanhado seu blog há uns 3 dias pelo celular e preciso dizer que voce escreve maravilhosamente bem. Sua escrita é muito forte e passa muito sentimento.

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  9. "Múltipla falência de orgãos.." Uau...

    É tudo verdade, a única maneira de não enxergar isso seria arrancar os próprios olhos. Mas não importa, se enxergam ou não... Tudo o que importa são as calorias... Aquelas não devemos, e não vamos, comer.

    Um dia seremos só ossos, nesse túmulo particular que criamos para nós mesmas. Não pode ser tão ruim.

    Beijos. !!!

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  10. Senti um peso enorme no peito lendo o seu texto.
    Minha vida é exatamente como vc descreveu e eu sinto muito por ser da mesma forma pra você :(

    Espero que você esteja bem :)

    Beijão!

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  11. Hey, você é o que eu preciso pra me manter forte! Senti muito tua falta!
    adorei a frase de garotas de vidro! Se mantem forte estou seguindo o teu planejamento das galaxias! rsrs!

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  12. Oi!!! Muito pesado com analogias triste. Vc precisa de força, se achas que não consegue sozinha, busca ajuda - é difícil mas vai pra terapia. Eu busquei pra me ajudar com meu transtorno borderline e salvou minha vida - eu consegui fazer minha faculdade, eu consegui parar de ir em festas e tomar porres todos os finais de semanas, de abusar de drogas, de manter um namoro abusivo, restabeleceu minha relação com minha mãe, criou uma relação q era inexistente com meu pai... Eu nunca toquei na questão do peso nas seções e por isso não me ajudou a ser saudável com isso, um dia chego lá, mas a terapia me salvou, de verdade MESMO, eu acho que estaria morta se não tivesse me tratado, eu sou mto mais feliz.
    Buenas, eu tinha dado uma sumida e abandonado o blog, voltei, reformei tudo e to cheia de vontade de chegar nos objetivos.
    Força pra nós!!!

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  13. Você tem uma ótima escrita garota
    Descreveu muita coisa do que passo todos os dias
    Ficarei lisonjeado de te acompanhar
    Abraçoos :-}

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  14. Uau,que texto forte, porém verdadeiro. Eu não sei muito o que te dizer, somente para buscar mais há Deus, eu sei, uma ana te falando isso! Mas sim, Ele é o nosso melhor amigo, e quando sinto que quero morrer, desabafo com ele, peço para me abraçar e me dar conforto, e aquilo tudo passa. Converse, desabafe com Deus, de amigo pra amigo, e a sua dor irá aliviar! Beijos e fique forte .

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  15. AMO esses textos inspiracionais, parabens, voce tem coragem pra escrever algo muito forte e pessoal, e que no entanto fala direto com a alma de quem tá lendo.
    Não acho nem um pouco fossa, pelo contrário, tira da inércia e põe em movimento.

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