segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Puede que me ciegue la fe Pero vuelvo a creer Que esto no se acaba Sueño que te intento besar Y me vuelvo a quemar La vida se me escapa Y aunque cada vez dueles más En mi alma Y aunque cada vez dueles más No te quiero olvidar

Eu passei horas encarando aquela garota pálida, nos melhores dias ela acreditava ter traços delicados. Mas a verdade é que ela parece um garoto guloso.
Eu me perguntava porque ela era tão feia, o que ela tinha feito em uma vida passada para merecer ser tão desajeitada. Senti pena.
Ela lamentava o fato de outras garotas terem muito e ela quase nada. Ela era desengonçada, pele com leves sardas, olhos castanhos dos mais comuns possíveis, igual ao cabelo também castanho que todo mundo tem. Ela pesava muito, todos sabiam disso. Aquilo era peso demais para uma garota pequena. Mais uma vez eu sentia pena. Ombros largos demais, dedos curtos demais, pés grandes demais. Ela deve ter sido uma pessoa horrível em outra vida, tão cruel que seu castigo ao nascer foi tornar-se alguém feia que se importa demais com aparências. Aquele nariz de bruxa me incomodava, ela baixava o olhar toda vez que percebia que eu estava observando.
Tentei sorrir. Ela sorriu de volta. Um sorriso tão triste e vazio que me encheu os olhos d'água. Aquela pobre garota, amaldiçoada, tão incompleta quanto uma lua minguante, se desfazia aos poucos e se perdia de si mesma. Eu queria ajudá-la, mas ao tocar em seu rosto de marfim percebi que uma película de vidro nos separava. O portal estava fechado, e eu não poderia passar Através do Espelho.
Debaixo daquela superfície a alma de uma menina condenada estava presa. Me senti tão infeliz ao constatar que nada que eu tentasse fazer poderia arranca-la de lá.
Lágrimas quentes contornavam seu rosto, molhavam meu rosto. Sal de menina-flor-vazia, água do mar de fada sem asas.
Só havia uma coisa que ela dizia lhe dar mais um pouco de paz, mesmo rodeada de pura banha aquela criança tinha um sonho de ser delicada e fria com um floco de neve. Ela amava algo em si que, a princípio, não podia ver: seu esqueleto. “Lindos ossos púrpura de leite” foi a expressão que usou ao me contar seus mais íntimos sonhos. Eu vi o desejo em seus olhos tempestuosos, então prometi que ela teria seus amados ossos. Seu sorriso falso me trouxe um pouco mais de verdade. Foi aí que decidi nunca mais abandoná-la.


9 comentários:

  1. Sardas, olhos castanhos comuns, cabelo comum... me identifiquei, tirando a parte de ser pequena, o que me difere da descrição é que sou ridiculamente alta ao ponto de andar com as costas curvadas para parecer mais baixa.

    É, parece que aos poucos vamos encontrando muitas coisas em comum com cada menina de cada blog.

    Os ossos são o sonho que todas nós queremos alcançar, ou talvez apenas um pouco de felicidade...

    Desculpe a nostalgia.

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    1. O importante é seguir em frente e não desistir da magreza 💕

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  2. Podia jurar que estava me descrevendo. Haha.
    Céus, seus textos são incríveis. Escritos com sangue... na alma! ♥

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    1. Obrigada 😍 fico lisonjeada. Parece que todas temos muito em comum.

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  3. Você escreve tão bem, que enquanto eu lia seu texto eu tentava imaginar essa garota que você se referia! 💝

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  4. Me lembrou na época em que eu cobri todos os espelhos do quarto e simplesmente não olhava nos espelhos descobertos. A santa fobia da própria imagem. Mas quem tem coragem e olha,no fundo, procura alguma coisa boa, e quem procura acha. Lindo texto. Várias comparações interessantes.
    Até.

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    1. Muito obrigada. Espelhos são reveladores, tem que ter muita coragem pra encarar.

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